You are currently browsing the tag archive for the 'pai' tag.

As lágrimas que se desprendem por ti sabem a outro sal.

Treze de Novembro de 1998 também foi uma Sexta-Feira.

Treze de Junho de 2008 também foi uma Sexta-Feira.

Quando não se respeitou em vida, muito menos se respeita de memória na morte. Mas acaba tudo por ser reenviado para o carácter de quem fala, não de quem é falado. Existem muito poucos santos e eu nunca conheci nenhum. Mas existem, sim, e já conheci algumas, pessoas que pelos meio dos seus defeitos tentam viver com alguma integridade e se mais não fazem é mesmo porque mais não podem. Não é refazer memórias dizer que o meu pai era um gigante. Também era pequenino. Mas era principalmente um gigante. E era bom, muito bom, naquilo que fazia.
Digam tudo dele. Diremos mais setenta vezes sete. Mas toquem no que ninguém pode tocar, porque nunca esteve lá, e o nosso sangue ferve para o defender como nunca ferverá para nós mesmos. E como ferve para nós mesmos.

A sério? A sério, pai, que já lá vão um ano e três meses? Mas como?…

Morreu o sogro de uma amiga, o pai de um amigo, o avô de uma sobrinha de coração. O sol continua inteiro, a Terra a rodar, e vão-se amantes, pais, avós, amigos… continuamos nós, com os olhos orvalhados neste espanto por o relógio do Outro continuar…

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffins, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out everyone;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

Funeral Blues – W.H. Auden – April 1936

Pai,

O Verão está a acabar, chegam os dias em que “a chuva segue encharcando a sombra da noite fria”, já se fala no Natal. E eu não quero que faça dois anos. Dois anos são vinte. Já não sei a falta que me fazes, as saudades que tenho de ti, dos teus olhos, do teu sorriso, da tua voz quando estavas calmo.

Desde que mudou o tempo que tenho um nó na garganta, o coração apertado. Anoitece, arrefece, a luz vai-se sumindo…

Um friozinho impertinente… um passar do tempo irreverente… raio do tempo…

Lembrei-me agora. Pai, o teu coração parou há 14 meses. Estamos em dúvida se vamos amanhã ver a Nossa Senhora da Penha de França nas ruas da tua aldeia, pôr as colchas nas janelas, mas a certeza é que já não vale a pena continuar a decorar o Seu manto azul com a tua promessa das Berlengas. Ela cumpriu. Até ao fim.

Ce n’est pas sa mort qui me fait d’la peine
C’est de n’plus voir mon père qui danse

ici

- Pai! Vem buscar a menina, que a menina é pequenina e cai!

Eu não me lembro, a história foi-me contada, sei que já falava mas que a minha cabeça mal chegava ao corrimão de mármore das escadas do prédio. Éramos três, eu, o meu pai e quem me contou a história, alguém que confesso não saber se ainda é viva – sei que da última vez que estive com ela, vi nos olhos dela que já tinha perdido todas estas histórias.

Nós somos tudo isto, as memórias que temos, que deixamos, que alguém tem de nós, somos também as fabricadas – somos sempre também um pouco a imagem que os outros fazem de nós, a tal espuma dos dias que crêem ser talvez não a nossa essência mas certamente uma qualquer orla essencial. Perdemo-nos sempre um pouco quando essa espuma se dissolve (num qualquer imperfeito vazio) mesmo que a tenhamos sempre recusado. O eu existe pelo outro, no reflexo que fica e no que é devolvido e o que está para cá do estanho é tudo e não é nada. Ficamos então com as histórias que nos contam (e os trovadores e os contos populares e Guttenberg e Bic e Canon…), que nos definem, que nos moldam, pestezinhas que azucrinam quando menos esperamos “um dia foste assim, quem te diz que não o és ainda? Quem és tu para dizer que não és ainda assim?”.

Éramos três, a menina que cresceu, o pai que ficou sempre grande, a velhota que ficou senil. A memória perdeu-se, e vou continuar a dizê-lo porque é ainda mais real do que eu dizer eu, perdeu-se com a morte do pai que vinha buscar a menina e levá-la nos braços ou pela mão, degrau a degrau, perdeu-se nas sinapses carcomidas e nos neurónios secos da velhota e eu… eu não fiquei com essa memória porque algures algo em mim decidiu que tinha ainda tanto mas tanto para lembrar e estavam ali aqueles dois que ma podiam contar. Eles já não estão, um dia este blog desaparece, a história perde-se, e a árvore ficará caída no meio da floresta sem um ruído, sem ninguém saber.

Exmo. Sr. Meu Pai:

Ah, tão contente que tu ficas por te tratar por Exmo Sr!

Venho dizer-te que acabei de voltar da missa pelo primeiro aniversário da tua morte. E que declaro oficialmente terminado este luto de um ano.

E que se amanhã me apetecer vestir-me de cor-de-rosa ou amarelo, sei que não o farei com a tua benção porque da única vez que ta pedi, protestaste que não sabias fazer tal coisa. Mas que o farei a saber que sorris com aquele teu olhar, sim, isso sei.

Beijinhos,
A Tua (Sempre) Irreverente

Lembrei-me agora de um dos momentos mais doces do velório/ funeral do meu pai. Para além do ambiente lindo de homenagem sentida, de amizade, de respeito por quem aquele homem maior que todos foi na vida de cada um, da família, dos amigos de cada membro da família à nossa volta, dos colegas de cada emprego pelo qual ele passou, das carrinhas que vieram da terra não “para não se perder um funeral” mas porque ele era de facto importante para a terra e para cada um…

Em conversa com uma colega dele no último sítio onde esteve, ela dizer que o meu pai quando falava da família, falava dos “rapazes” e “da menina”. E a ternura e a finalidade com que ela repetiu “a menina” não precisavam de facto de mais nada.

Um ano sem ti. Continuamos todos cá. Mesmo tu.

Escrevi um post na minha cabeça, lindo, sentido, profundo, a relembrar os últimos momentos, o último dia e fim de tarde, aquela manhã, o que me ficou gravado na memória e o que estranhamente não me lembro, a querer escrever em português coisas que não consigo fazer fluir em inglês.

Se calhar também porque o meu blog inglês, um blog fechado, tem como leitores amigos, amigos conquistados em quatro anos e meio de dias em dia a dia, entre os mortos e os recém-nascidos, humanos e animais, as mudanças de casa, os casamentos e os divórcios, os jantares de família e as tisanas na cozinha do emprego, os quizzes e memes completamente estúpidos e hilariantes. E os *hugs* que vêem mesmo do coração e os telefonemas aqui e ali e os cartões de Natal e de aniversário que atravessam os oceanos e os estados. Gente a quem basta dizer meia frase e já perceberam tudo, porque dia após dia têm estado ali, aqui. Gente que me acompanhou dia a dia durante aqueles meses de visitas diárias ao hospital, que leu coisas cruas, coisas violentas, e que nunca arredou pé.

No dia em que o meu pai morreu, bastou escrever “He’s gone”. E mesmo os que raramente comentam, porque há quem seja assim, disseram coisas que me atravessaram de lado a lado. Porque os conheço. E sei o que querem dizer as suas palavras, as suas pontuações, as suas userpics. Eu sabia que estariam lá e eles estiveram.

E como que bater nas mesmas teclas seria demasiado cruel. Também por isso vim para aqui e também porque precisei de escrever a alma noutra língua. Uma que eles não entendem. E sentiam-se tristes e excluídos quando eu escrevia numa língua que eles não entendem.

Mas às vezes preciso deste idioma.

O post vai longo e não tem nada a ver com aquele que tinha escrito na minha cabeça e ao mesmo tempo tem: porque é a prova de que a vida continua, continuou, e que no fundo nunca estive sozinha.

Mas, sim, faz agora por esta hora um ano que entrei naquela sala e me despedi do meu pai “até amanhã”, lhe dei um beijo e saí. Saí para continuar a vida.

Acho que me fez bem stressar antes de tempo, sinto-me em paz :)

safe_image.php


"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

Serenity Prayer

God grant me
The serenity to accept
the things I cannot change;
Courage to change
the things I can;
And wisdom
to know the difference.

Lista da Procrastinação

A preencher

contacto

contacto

Flickr Photos

il paese che muore

290/365

Villa Moderna

More Photos

 

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30