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Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal em França, em artigo de opinião no Correio da Manhã

(…)
Este é um outro lado da emigração de que não se fala, das muitas pessoas que talvez não tenham conseguido um bem-estar material que lhes dê o orgulho e a vontade de manter uma relação regular com a terra natal, de levar aos familiares em Portugal as histórias da sua vida em França, de fazer visitas a velhos amigos e conhecidos, de charlar pelas mesas dos cafés, no contentamento dos Verões nas suas terreolas. São os perdedores da nossa eterna aventura exterior, alguns marcados por crises afectivas que lhes condicionam o futuro. Um dia, sabe-se lá quando!, começaram a fechar-se em si mesmos, a ponto de já não terem vontade de viver o mundo exterior. Quantos haverá, entre o mais de meio milhão de portugueses que por aqui vivem?
(…)

Um cidadão português de 62 anos foi ontem encontrado sem vida, em casa, nos arredores de Paris, dois anos após a sua morte natural. Nenhum familiar, amigo, conhecido ou vizinho deu, entretanto, pela sua falta.

Pode haver algo mais triste do que isto?

Da morte, da solidão, do abandono, de todos os conceitos e emoções que vêm à cabeça, das coisas criminosas que nos fazemos (lembro-me de episódios trágicos no Verão de 2003 por toda a França)…

…e de repente pensar que tudo isto irá acontecer cada vez mais porque os nossos portos, os nossos avecs, os nossos esfaimados e desesperados que partiram durante a noite com meio retrato no bolso da camisa e pouco mais, os nossos analfabetos que se tornaram bilingues, os nossos que deixaram paredes e telhas para viver num gueto de lama e merda, os nossos pedreiros e as nossas porteiras, os nossos emigrantes dos anos 60 que deixaram uma pátria para trás levando-a no coração (e porra, como a levamos e a temos no coração) e que se habituaram a ser menosprezados por compatriotas e senhores de sangue da terra para onde foram, os nossos portos, os nossos avecs, os nossos, os nossos, os nossos vão começar a morrer cada vez mais por terras de França.

E se morrer sozinho é mau, morrer longe de casa… Longe de casa trabalha-se, ama-se, faz-se um filho. Mas não se morre longe de casa.

A música: Jacques Brel, Patrick Bruel, Mylène Farmer, Serge Reggiani, Renaud e tantos outros…

O humor: Les Bronzés, Jean-Marie Bigard, Coluche, Elie Kakou…

O cinema: A descoberta de um Gérard Depardieu jovem e intensíssimo, de todo um cinema contemporâneo onde as histórias normais são contadas de uma forma tão diferente do cinema de Hollywood, com uma luz e um grão e uma naturalidade dos diálogos que aconchegam a visão de uma certa realidade que me agrada…

A comida: o brie, o aneth (endro em português) nos peixes, o foie-gras, uma pastelaria de explosão de sabores e cores, a minha rejeição dos pratos demasiado elaborados e descoberta da preferência pelos sabores simples e marcados da cozinha tradicional portuguesa (precisei da cuisine française para perceber o quão gosto de uma boa carne de porco à alentejana)

A literatura: principalmente a contemporânea, principalmente Anna Gavalda

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"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

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God grant me
The serenity to accept
the things I cannot change;
Courage to change
the things I can;
And wisdom
to know the difference.

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