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Treze de Novembro de 1998 também foi uma Sexta-Feira.

Treze de Junho de 2008 também foi uma Sexta-Feira.

Numa altura em que poucas coisas arrancam um sorriso no coração de certa pessoa, eu troco o cachecol azul por um encarnado e branco e peço “só mais um! só mais um!”.

Até ao dia, claro, em que ambos os cachecóis se encontrem no mesmo estádio. Entre o amor e o egoísmo, acho que prefiro um empate :p

Mas Deus leva os que ama
Só Deus tem os que mais ama
(Trovante, 125 Azul)

Faz hoje dezanove anos fui à praia.

- Pergunta ao teu tio, ele sabe explicar melhor que eu…

Dez minutos depois, já eu noutro lado, ela vem pelo corredor:

- Oh tia! Eu já sei, o tio já me explicou! Já te vou dizer como é!

Pensei em escrever sobre o 25 de Abril, mas mais altos valores se levantam. Hoje é Dia Internacional para a Consciencialização do Síndrome de Alienação Parental. Não sou mãe mas tia roubada e ainda mais hoje. Não me importo que a minha sobrinha me fuja aos abraços e beijos e carinhos porque é ela que o faz, naquela brincadeira do “carinhos? que horror! bleuargh!”. Não me dói porque lhe acho piada, porque a mãozinha dela vem sempre à procura da minha quando vamos na rua, porque aquele “oh tia” vem sempre tão quente, tão puro, tão direito a cantos do meu coração que nasceram com ela naquela manhã de Novembro e que são dela, só dela…

Mas dói e revolta e dá vontade de partir qualquer coisa quando a alienação é forçada, imposta, a mim, à minha mãe, ao meu irmão. E quando de repente sabemos aquela carne da nossa carne ferida, sem direito aparente a saber como nem quando nem porquê. Apenas “ela este fim de semana não vai, tem de fazer pensos”.

E nós, hoje, quem nos faz a nós o penso?

Do Mundo Perfeito ao Regresso da Inocência. Foi bonito o festival :)

Hoje há sarau da pitorra. Estou curiosa quanto à música-banda-sonora do esquema dela. Da última vez que tive a oportunidade de a ir ver, fiquei deliciada: uma canção divertidíssima da Ilona Mitrecey.

Fez ontem dezoito anos que pedi o meu certificado do 12º ano. Fomos o grupinho de amigas ajudar a matar o tempo na fila da secretaria, fizemos um rolinho com o certificado e hop Caparica connosco. Julgo que foi também o dia em que apanhei o último escaldão da minha vida – odeio escaldões, odeio a pele quente e repuxada e dorida e desde então besunto-me com protector solar para crianças de hora a hora. Levo dois meses para perder este ar de anémica crónica (engraçado, entretanto descobri que tenho uma condição genética que me impede de algum dia fazer uma anemia), mas, escaldões? NUNCA MAIS.

O certificado acabou por ser uma boulette. No dia em que finalmente calhava a minha inicial para as inscrições na Avenida de Berna, ao fim de não sei quanto tempo de espera, a administrativa que me calhou informou-me que não era aquele, era outro. Lá fui eu a correr do Quartel do Trem Auto para o D. Pedro V, a entrar meio histérica na secretaria “estou a inscrever-me na universidade, hoje é o único dia, tenho prioridade, dêem-me o certificado correcto!!!”. Nova corrida para a Av. de Berna. A vida às vezes tem destas coisas, acabou por ser ali que fiz os meus quatro anos de aulas e frequências e festas e tardes na esplanada (poucas, que eu era avessa a baldas).

Pode parecer estranho que me lembre tão bem destes dias. Que saiba o dia exacto. Que se tenha gravado assim na minha memória.

Faz hoje dezoito anos, estava muito bem em casa, a cuidar do meu escaldão, quando tocou o telefone. Um primo do meu pai a dar-nos a notícia de que um dos meus “primos holandeses” tinha morrido. Uma coisa estúpida, como só pode ser a morte de um puto de dezasseis anos. Uma mota, um sol poente, um comboio, um pescoço partido. Coisas estúpidas. Segundos apenas que teriam evitado uma coisa tão estúpida como um puto que nunca chegou a fazer dezoito anos. Vacinado, mas nunca maior.

Há quem diga que a medida da nossa vida é quantas pessoas marcamos ao longo dela, como as marcamos, o quanto as marcamos. Este é um mundo de heróis desconhecidos, quantos sem duas linhas sequer para a posteridade no geral : “a família de fulano, enlutada”. A blogosfera rebenta com as duas linhas, mas, no final, tudo fica para as disturbances in The Force.

Há quem diga que a medida da nossa vida é a marca que deixamos nas pessoas, seja a nossa vida breve de três décadas, longa de quase sete, promessa de poucas semanas como o bebé sem cérebro duma amiga. Descobri o sentido da minha vida, marcar os outros pelo amor. Falta a definição do amor, que é coisa para ir definindo dia a dia, gesto a gesto. Ainda tenho muito para fazer, mas tenho a certeza absoluta de que já deixei a minha marca, indelével, o meu nome não rasurado no livro de endereços dos corações de alguns. E se a vida rasura nomes no meu próprio livro… para mim eles continuam lá. Sempre lá. (Des)Vantangens de Caranguejo…

Ele era louro, olho azul, igual ao pai. Um ar nórdico com a altura de um português. E como podem ser grandes os portugueses… A mal ou bem uma palavra definia-o, por falta imediata de outras, pela força da palavra na nossa memória colectiva: emigrante. Saiu daqui com a quarta classe, foi pr’América, prá França, acabou mais a norte, desenrascou-se para viver, para trabalhar, para aprender três línguas sozinho, para enterrar um filho numa terra que não era a sua. Andou anos pelos oceanos – era emigrante e marinheiro. Quantas pessoas marcou? Será que alguma teve ontem uma memória à deriva daquele louro de olho azul, extrovertido, da voz forte, do sorriso largo, da pancada nas costas brutal, duma conversa de taberna ou de convés, das noites a atravessar montanhas, meio retrato rasgado no bolso junto ao peito? Porque o salto não foi só dele, foi de dezenas e dezenas que ele ajudou. Quantos sentiram ontem a tristeza na Força? O vazio súbito?

Na minha própria experiência de emigrante, senti sempre a sua presença, o seu exemplo, a sua força de desenrascanço – mais do que portuguesa emigrante, era sobrinha de emigrante, o meu sangue já tinha desbravado aquele caminho, duma forma muito mais dura do que eu, duma forma quase protectora. Como devem fazer os homens de família. Desbravar o mundo para nós. E a quantos mais ele terá desbravado o caminho, a quantos terá inspirado, quantos que nem ele próprio sabia? Em casa marcamos vinte, no mundo marcamos mil, apenas pela viagem…

Eu nasci menina única em três gerações de homens e só por isso marquei, nasci com um capital infindável no coração daqueles homens, homens de mar, de ar, da terra, homens que estiveram na guerra, homens que por qualquer forma ou motivo a ela escaparam – homens com o seu feitio, os seus defeitos, que deixarão para sempre os seus momentos de desagrado, de ódio, de indiferença, de carinho. Tudo isso é vida. Não me interessa, esses corações são meus, embalaram-me em sorrisos desde que eu nasci – bastou nascer, bastou nascer menina. E ontem perdi um coração. Perdi um sorriso. Perdi uma voz forte de sotaque marcado, uma voz que eu conhecia à primeira sílaba. Perdi os braços que me levantavam sem esforço das areias da Foz do Arelho. Perdeu-se no mundo uma dessas recordações vivas de eu ter nascido menina numa família de homens. Perdi um pouco da minha meninice, de algo que me define. Perdi muito. Um dia havia de acontecer, mas sempre amanhã, nunca ontem. Deixem-me um pouco o egoísmo dos que ficam.

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"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

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Courage to change
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