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A minha máquina é uma m*rda e eu fico sempre com o ecrã encadeado pelo sol e nunca sei muito bem o que estou a fotografar. Mas hoje é o Dia Mundial da Fotografia e apeteceu-me levar a máquina fotográfica. Fui tomar café com um amigo à Rua da Misericórdia, na minha zona favorita de Lisboa, e acabei por fazer o meu percurso do costume, descer o Chiado.

fotos de 19 Agosto

(clicar na imagem para ir ver as fotos no Flickr)

Um sol lindo, um céu azul azul, uma Lisboa com uma dignidade de pedra apesar dos graffitis, dos incêndios, dos negócios loucos…

Quando tiver tempo, quero pegar naquela sequência do Elevador de Santa Justa e fazer uma só imagem.

Haverá algo de menos original que dizer que amo Lisboa, de dia, de noite, a textura das colinas, o rio devolvido do Parque das Nações ao Cais do Sodré às Docas, o Castelo visto de S. Pedro de Alcântara, o Rossio cheio de luz, o olhar renovado pelos turistas e pela idade e pelas viagens, dizer que não há fotografias porque são demasiadas, dizer como o outro “Amo-te, sou tua” (1), e escrever este texto não com fado em fundo mas com a guitarra flamenca de Paco de Lucia, a lembrar Barcelona, Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen, toda aquela cor mediterrânica, todo aquele sangue, todo este sangue…

Amo Lisboa e tenho tido a sorte nos últimos dias de a percorrer com amigos novos e de redescobrir este amor olissiponense na descoberta destas amizades.

(1) Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett

Sempre votei no mesmo partido. No outro dia, um amigo trouxe para a nossa pequena àgora digital a discussão do que é o “voto útil”. E fiquei a matutar, se o meu voto sempre igual tem estado enfermo de utilidade podre ou tem sido uma verdadeira expressão dos meus princípios e valores.

É certo que têm agora nascido alguns partidos muito interessantes, o MEP, o MPT, o MMS. Partidos pequeninos em votos e prejudicados por uma cobertura mediática sobre a qual haveria muito a dizer – mas este meu blog é suposto ser sobre o meu Acto de Ser e não sobre reflexões sobre o mundo exterior e sobre o meu incipiente activismo político.

Mas são pequenos partidos que apostam em algo que me é muito querido, e que julgo ser o futuro: as comunidades internáuticas, a novidade das redes sociais, e mais do que o debitar de cassetes, a possibilidade de dialogar directamente com os quadros superiores desses partidos.

Ou então sou eu que tenho sorte e por uma razão ou outra cheguei à Pessoa antes de conhecer o Político.

Mas, enfim, com tudo isto, nas autárquicas para Lisboa, onde voto, vejo-me pela primeira vez a matutar se voto ou não no meu partido de sempre. O candidato nunca me inspirou confiança. Sempre apostei na equipa, nas pessoas do partido, e é por pensar que quem faz o trabalho são as pessoas todas e não apenas os nomes na lista eleitoral e por confiar nas pessoas do “meu” partido e desconfiar profundamente das pessoas do outro grande partido (para além de sempre ter rejeitado o próprio programa) que voto no partido para além do candidato. O meu voto útil tem sido sempre que as sondagens (oh que linda outra história…) e a minha intuição me dizem que a luta pode ser renhida e por meia dúzia de votos pode ser o outro a ganhar a prioridade nos assuntos. E eu acredito, sempre acreditei que o meu voto, mesmo que seja só um, conta. Conta mesmo.

E agora vejo o candidato do meu partido a fazer as maluquices do costume (mas caraças não se chega ninguém de valor à frente, nem precisam de ir fazer a rodagem do carro, para substituir la crème de la crème que já vai deslaçando???) e os outros com umas estratégias hiper-complicadas e sim, desonestas, desonestas para quem julga estar a escolher alguém em quem acredita e se vê de repente na possibilidade de se espalhar com uma valente rasteira à traição.

E começo a pensar seriamente em com o meu voto dar voz aos tais pequenos partidos quase bebés. Mas muito seriamente.

Tirei umas horas para mim e fiz algo que julgo que há vinte anos não fazia: visitei o Museu da Fundação Gulbenkian.

Deliciei-me com os pormenores que se perdem quando estamos apenas de visita, com as correrias de três museus e mais dez monumentos enfiados num dia. Marimbei-me para os demais e ajoelhei-me para estudar os cães de chaminé (com querubins a soprar o fogo) e quase encostei o nariz aos vidros para ver o trabalho decorativo das terrinas de prata. Vi os quadros e as tapeçarias como queria, como gosto, ao longe, ao perto, o todo e uma parte aqui, outra ali. Sem ninguém a puxar-me para outra peça, sem me preocupar com as horas.

E com um final de tirar a respiração: a sala de René Lalique, com coisas que os anos me ensinaram a apreciar. Como esta coisa linda:

cat choker

Link para Gargantilha “Gatos” no site do Museu. Não se esqueçam de clicar em detalhes! :)

vão mas é de carrinho – jugular

O bem, por exemplo, de, se o plano for aprovado e for para a frente, se poder passear nas ruas da Baixa sem ser sufocado pela fumarada e estremecido pelo estrépito de um trânsito demente. O bem, por exemplo, de quem vive nas ruas da Prata ou do Ouro passar a poder abrir as janelas e não sentir a casa tremer nas horas de ponta. O bem de quem ali reside ou quer visitar uma determinada loja poder sair de um táxi à porta, em vez de ter de andar quilómetros (é proibido parar nas ditas ruas).

Pois, pois, e com estas contradições é que nos tiraram o gozo de andar pela Baixa, de escolher o branco ou o negro da calçada, de andar de nariz no ar a redescobrir os mimos das fachadas de séculos… Mas isto sou eu, que fui habituada desde menina a calcorrear tudo, sair no Rossio e ir até ao Terreiro do Paço a correr Rua do Ouro, Rua Augusta, saber aos cinco anos a diferença entre paralelas e perpendiculares, subir o Chiado, passear tudo, ruas e montras… era o meu Fonte Nova, o meu Colombo, o meu Amoreiras, tudo ao ar livre, com as empregadas à antiga, que já nos conheciam, já guardavam os sacos com os sapatos horrorosos comprados pela minha mãe e que eu convenientemente esquecia num canto…

E já crescida, trabalhei na Baixa, vou às compras à Baixa, chateio-me com a vida e vou recarregar baterias pela Baixa, a pé do Marquês ao Cais do Sodré, com uma bica na Brasileira pelo meio.

Baixa cirúrgica de táxi, só quando o cheiro a queimado do Chiado era ainda demasiado forte para a alma (e mais não falo do Chiado porque a alma ainda dói). Porque a Baixa de Lisboa merece que só se passeie, mesmo que a passo acelerado. Porque a Baixa de Lisboa é bela demais para visitas comerciais cirúrgicas de táxi à porta. Os outros que se lixem, o trabalho que se lixe, as reuniões que esperem, o marido e os amigos que entendam. Lisboa é Lisboa, carago!

PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して – 風想像力: LISBOA REVISITADA

Em Portugal onde tudo é rasca, Lisboa é uma anomalia: rasquíssima, sórdida, suja, despintada, com carecas dos três sexos e de todas as idades, inúmeros barrigudos e bairros modernos decrépitos, em que o cimento abre racha ao terceiro dia, no entanto, de muitos pontos da cidade, mancha de muitos sinais, avista-se o rio.

O mísero, o grande Tejo entra pela cidade de todas as maneiras que pode. Às vezes, está entre um anúncio luminoso e uma roupa pendurada, toda amarrotada, outras mói uma das últimas bugainvílias ( quem terá plantado as bugainvílias em Lisboa: um secreto exército, de cara púrpura, uns anjos degradados e empoeirados?).

Entretanto, ninguém pára o rio. O seu papel é correr, furar, insinuar-se, tornar-se oblíquo, rasar, rasurar. Deve ser ele que escreve os nossos BIs, todos aldrabados, com a altura errada, uma cara de afogado, uma assinatura engomada e perfumada, esticada, a fazer-se importante, dado que não há gente nenhuma num BI, apenas água suja e vitoriosa, fermentada a barbatana.

As pedras da calçada – em tantos pontos desconexas, arrancadas, usadas para telegrafias estranhas, no fundo estão sempre em movimento. São uma teia, uma rede, uma net fabulosa sem o idiota do Sapo (que é uma rã porque os yuppies pálidos da tecnologia confundem uma mosca com um áptero, um mosquito com uma aranha, e uma rã com um sapo) que apanha as pessoas pelas solas.

Um Lisboeta no fundo o que é? Uma pessoa apanhada pelos interstícios da calçada. Não há saída, não há lápide, emblema, credo ou raça, ideologia ou coçeira, religião ou qualquer bufa semelhante, conta no banco, férias num resort exclusivo que o safem. As sinuosidades, os desvios, o espírito do labirinto insinuou-se pela planta dos pés. O ar pálido das fadistas doentias? puro calcário, pisaram muito a calçada. As promessas vãs dos políticos, o seu triunfalismo bacoco: pura pedra, pura calçada. E os que-andam-sempre-de-automóvel são cárie pura, sombras do Hades, já vogam como medusas astrais e assassinadas atrás e adiante dos anúncios apagados a cuspo.

E isso está certo com as fachadas a cair em vida, os vidros a desabar, o cheiro fortíssimo a metro combinado com peixe frito e sardinha assada. Mesmo o cheiro nauseoso das pizza houses, das hamburguer’s houses, das sanduicherias anglo-coisas, dos McDonald e de todo o género de restaurantes back street que oferecem a turistas míseros fotografias tricoloridas de pratos que cheiram a plasticina, acaba por se combinar com o alecrim.

Nunca cheira bem, mas cheira sempre a Lisboa, a vasa do rio, a um lodo indeciso e antiquíssimo, a fenício desidratado, a judeu transviado. Há muito mais facas na liga no ar do que parece, as facas moles deste povo de hábitos e costumes pálidos que bate com a olheira nas coisas, que tem os burgueses mais tias do mundo, e os polícias mais sonâmbulos da Ibéria, que andam devagar e ralham devagar, e multam devagar, como se fossem o Jacques Brel da Valse à Douze Temps de 45 rotações passado a 33.

Os semáforos são luzes de natal. As luzes de Natal são semáforos. O rio dilui os signos fortes, contradiz as antinomias, liquefaz contradições. Julgar que se é independente do rio? Pois é uma cidade de mui graves e grandes fingimentos. Passa-se a vida a fingir que não somos destino daquelas águas, matéria daquele caldo primitivo. Mas em vão se passa o mais acanhado possível, de um para outro lado, de ponte, de barco, de automóvel, a assobiar para o lado, pretendendo que nada daquilo é connosco.

posted by Miguel Drummond de Castro

Ando desde dia 17 com este post no Bloglines. Hoje achei melhor dar-lhe outro destaque. Cito o texto todo por uma razão muito simples: o tamanho da letra no blog original irrita-me, acho que assim mais pequeno se lê melhor.

Ainda estou a digerir estas palavras, esta visão que partilho e não partilho. Mas acho tudo isto suficientemente forte e estranho para o por aqui.

Vou fazer de conta que vi o Los Lunes Al Sol na última quarta feira na TVE ;) Há uma cena deliciosa onde Santa (Javier Bardem, que faz um papelão, como de costume) faz uma daquelas conversas de pato-bravo que leu umas coisas e manda umas bocas sobre a Austrália (“hostia!”) ao seu amigo Lino. Ao bom estilo pato-bravo, o homem enrola-se na introdução e explicação do conceito de antípodas. Não de forma tão desastrosa como mais tarde com o “critério”, mas mesmo assim ainda um pouco. Um cachachinho.

Por acaso, descobri hoje esta página que se dedica a fazer descobrir os antípodas, ou, como eles dizem, se escavássemos um buraco até ao outro lado do mundo, onde é que iríamos parar. Como é da praxe, o meu primeiro teste foi “e Lisboa?”. Tinha a ideia que o meu buraco acabaria no mar, não tinha era a ideia que seria tão perto da Nova Zelândia.

anipodas lx

Descubro assim que no dia em que quiser escavar o tal buraco, como não sei nadar, o melhor é começar a escavar perto de Cáceres, o lugar mais perto para chegar a terra.

Com o Santa ainda na memória, achei engraçado ir tirar a limpo os antípodas de Vigo:

antipodas vigo

Santa dizia que os antípodas eram a Austrália, afinal é mais a Nova Zelândia… Não é pelos dois mil e tal quilómetros de mar de engano (comum, aliás) que vem algum mal ao mundo :) Duvido é que lhe dessem os tais não sei quantos quilómetros quadrados quando ele se reformasse…

É um cachachinho deprimente que um dos “Local Picks” lisboetas no Facebook seja a Pastelaria Suíça. Gosto muito da Suíça (das duas, do país e da pastelaria), mas não deixa de ser deprimente.

Talvez o mais deprimente seja que é uma das minhas únicas reviews na app… Enfim, talvez um dia consiga voltar ao circuito da restauração, algo além dos bifes com batatas fritas…

Site Meter

Isto do en apesanteur já começa a chatear….

Se bem que não me possa queixar muito. Esta semana já conto com dois sóis postos ali entre o Saldanha e São Sebastião, cabelos ao vento e narinas cheias do ar frio e húmido deste Abril. Um salto ao Monumental, porque prefiro as bilheteiras com o nome antigo, e outro salto ao Saldanha Residence (cough, raio de nome) para o trágico romance de Fiorentino e Fermina em Tempos de Cólera. E outro salto às escadas rolantes do El Corte Inglès (dito mesmo à portunhol snob, porque tem mais piada). Fumei um cigarro à saida do 46 e engraçado como os perfumes da secção trás-portas se escapuliam do edifício e se misturavam no ar frio até mim, dando já um gostinho do perfume que ia encontrar. Madalenas fractais?…

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"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

Serenity Prayer

God grant me
The serenity to accept
the things I cannot change;
Courage to change
the things I can;
And wisdom
to know the difference.

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