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Pensei em escrever sobre o 25 de Abril, mas mais altos valores se levantam. Hoje é Dia Internacional para a Consciencialização do Síndrome de Alienação Parental. Não sou mãe mas tia roubada e ainda mais hoje. Não me importo que a minha sobrinha me fuja aos abraços e beijos e carinhos porque é ela que o faz, naquela brincadeira do “carinhos? que horror! bleuargh!”. Não me dói porque lhe acho piada, porque a mãozinha dela vem sempre à procura da minha quando vamos na rua, porque aquele “oh tia” vem sempre tão quente, tão puro, tão direito a cantos do meu coração que nasceram com ela naquela manhã de Novembro e que são dela, só dela…

Mas dói e revolta e dá vontade de partir qualquer coisa quando a alienação é forçada, imposta, a mim, à minha mãe, ao meu irmão. E quando de repente sabemos aquela carne da nossa carne ferida, sem direito aparente a saber como nem quando nem porquê. Apenas “ela este fim de semana não vai, tem de fazer pensos”.

E nós, hoje, quem nos faz a nós o penso?

Entrar na FNAC e fugir.
Entrar na Disney Store e fugir.
Entrar na Sephora e fugir.
Entrar na Parfois e fugir.
Entrar em [insert clothes store name] e fugir.
Comer uma waffle.
Ir a pé para casa.

Et lui, là, ce grand crétin, ce péteux, ce vantard, ce petit matador de province avec sa grande gueule, sa grosse moto et son millier de bimbos cochées sur la crosse de son pétard, oui, lui, là, ne put s’empêcher de rougir.

Anna Gavalda, Ensemble, C’est Tout

Llevo las miradas guardadas y un pasado que no fue
Llevo las llaves olvidadas y un cerrojo que nunca encontré
Pero hoy cambiare el orden de mis momentos
Tu sol será mi centro la vida es hoy ni mañana ni ayer
Y danzaré al son de la vida, danzaré al son de la vida gritando eh eh eh ah
Los restos del naufragio convertidos en oro de ley
Porque si todo se mueve lo que perdura inalterable es saber
Que la vida es un giro de mas de un sentido, tu vale vale tu sol que el mío encontré
Soñando en la misma orbita navegando en el mismo vaivén
Y danzare al son de la vida danzare al son de la vida, gritando eh eh eh ahhhhhh
Veneren vamos veneren vamos veneren vaivén

(Macaco)

Em dias assim, em que a trovoada se mistura com os pássaros, a chuva com o céu azul, dias que não se decidem, uma única certeza me anima: seja qual for o dia D, nunca na minha vida a Austrália esteve tão perto como HOJE.

E amanhã ainda mais.

Duas ou três coisas: Auto-estrada

Era na Polinésia francesa, numa ilha cujo nome me escapou, mas que teria alguns quilómetros de auto-estrada. O meu conviva contou que conduzia a boa velocidade por essa via quando, de repente, começou a observar que os automóveis iam abrandando, até pararem mesmo no meio da própria auto-estrada. Surpreendido, até porque não havia nenhuma razão aparente para esse movimento colectivo, estacou também o seu carro e dirigiu-se ao condutor da viatura que seguia à sua frente, inquirindo sobre a razão de tão estranho procedimento. A resposta sintetiza toda a história: “Sabe, nós cá na ilha paramos sempre para ver o pôr-do-sol”!

Sim, sim, com todo o remoinho interior enganei-me a contar os anos. 44 de casados, não 49. Enfim, por esta altura também já quase que essas contas não interessam, coisas que ficaram suspensas na intemporalidade…

Fui à FNAC no outro dia e trouxe um dos catálogos porque já me faltava leitura nova na casa-de-banho e ainda não tive pachorra para comprar o catálogo da La Redoute. Por acaso, era o catálogo infantil, que sempre é mais giro, tem mais cores, mais bonecos…

Mas agora fiquei neste impasse. Preciso de um leitor portátil de DVDs. E não consigo escolher. O preço é quase igual:

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(Caraças, que isto hoje está bonito…)

Tenho, por puro desporto, uma fotocópia, que me custou cinquenta cêntimos, do meu assento de nascimento. E lá está, já mesmo sem chatear, a anotação “legítima”. Filha legítima de pais casados, pelo Estado e pela Igreja. Já nem me chateia porque sei quanto sangue bastardo (e azul! E do clero!) está por trás do rol de nomes da minha filiação. Já o vi em algumas certidões, pai desconhecido, mãe solteira… as histórias não se contam à socapa, sabem-se até por vezes os pormenores das violações de há mais de um século, os filhos que não convinha perfilhar mas que se sustentava e que se mandava para o seminário, a quem se dava comida à mesa ao lado dos legítimos. Eram outros tempos.

Chocou-me mais o dia em que, remexendo entre papéis, a minha mãe me passou para as mãos o Diário do Governo onde vinha chapada a autorização para que o meu pai, após investigação pelas autoridades competentes, pudesse contrair matrimónio com a minha mãe, funcionária pública. Sei que o relatório dessa investigação desapareceu convenientemente com outros documentos numa manhã de Abril, em dias que não se sabia quem por aí vinha e que uso poderia fazer desses papéis… Quem não deve, não teme, mas às vezes não se sabe muito bem como será definida essa dívida, e, na dúvida…

São três e meia da tarde do dia dez de Abril e há quarenta e quatro anos, nos corredores da Igreja de São João de Deus, a minha mãe vestida de branco, com uma cintura que cabia no arco das mãos do meu pai, esperava que o quase marido, devidamente autorizado pelo Estado, recebesse a autorização da Santa Igreja – e não fosse punido com muitos Pai-Nossos e Avé-Marias porque senão o casamento atrasava-se ainda mais…

Minutos depois atrapalhou-se na assinatura e escreveu a seguir aos seus os apelidos todos do meu pai, dando assim aos filhos que viriam um nome comprido, comprido… Legítimo e autorizado. Pelo Estado e pela Santa Igreja. E que hoje, 44 anos depois, parece um pouco vazio porque falta aquela metade.

Caraças, que isto hoje está mesmo mau…

Je n’imaginais pas les cheveux de ma mère
Autrement que gris-blanc
Avant d’avoir connu cette fille aux yeux clairs
Qu’elle était à vingt ans
Je n’aurais jamais cru que ma mère
Ait su faire un enfant
Si je n’avais pas vu cette blonde aux yeux clairs
Cette fille aux seins blancs

Et j’avais oublié qu’avant d’être ma mère
Elle avait mis trente ans
Et qu’elle s’était donnée et qu’elle avait souffert
Sous le joug d’un amant
Je n’aurais jamais cru que ma mère
Ait pu faire l’amour
Si je n’avais pas vu cette blonde aux yeux clairs
Cette fille aux seins lourds

Je n’imaginais pas que ma mère soit encore
Si jolie en gris-blanc
Pour les yeux de celui qui caressait son corps
Qui l’aimait à présent
Je n’aurais jamais cru que ma mère
Ait su faire un enfant
Si je n’avais pas vu cette blonde aux yeux clairs
Cette fille aux seins blancs
Si je n’avais pas vu cette fille aux yeux clairs
Qu’elle était à vingt ans

Paroles : Michel Sardou et Claude Lemesle
Musique : Jacques Revaux

Faz hoje 44 anos que os meus pais se casaram. É o primeiro ano que o meu pai já não está cá para eu lhe dizer “olha, não te esqueças…” e ter como resposta aqueles olhos de puto apanhado em falta e um “é verdade… vais comprar-me uma flor?”…

Pour avoir si souvent dormi
Avec ma solitude
Je m’en suis fait presqu’une amie
Une douce habitude
Elle ne me quitte pas d’un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m’a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu’où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j’y prenne goût
Ou que je réagisse?

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Par elle, j’ai autant appris
Que j’ai versé de larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l’amour
D’une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, non, non, je ne saurai jamais seul
Avec ma solitude

(Georges Moustaki; Serge Reggiani)

Je me souviens d’un arbre
Je me souviens du vent
De ces rumeurs de vagues
Au bout de l’océan
Je me souviens d’une ville
Je me souviens d’une voix
De ces noëls qui brillent
Dans la neige et le froid

Je me souviens d’un rêve
Je me souviens d’un roi
D’un été qui s’achève
D’une maison de bois
Je me souviens du ciel
Je me souviens de l’eau
D’une robe en dentelle
Déchirée dans le dos

Ce n’est pas du sang qui coule dans nos veines
C’est la rivière de notre enfance
Ce n’est pas sa mort qui me fait d’la peine
C’est de n’plus voir mon père qui danse

Je me souviens d’un phare
Je me souviens d’un signe
D’une lumière dans le soir
D’une chambre anonyme
Je me souviens d’amour
Je me souviens des gestes
Le fiacre du retour
Le parfum sur ma veste

Je me souviens si tard
Je me souviens si peu
De ces trains de hasard
D’un couple d’amoureux
Je me souviens de Londres
Je me souviens de Rome
Du soleil qui fait l’ombre
Du chagrin qui fait l’homme

Ce n’est pas du sang qui coule dans nos veines
C’est la rivière de notre enfance
Ce n’est pas sa mort qui me fait d’la peine
C’est de n’plus voir mon père qui danse

(Didier Barbelivien/Didier Barbelivien)
(Michel Sardou e Garou)

Começo finalmente a fazer o luto, ao fim de quase cinco anos, da minha biblioteca perdida para lá dos Pirenéus. Hoje comprei um exemplar de Ensemble, C’est Tout, da minha autora francesa favorita, Anna Gavalda.

Conheci Gavalda já nem me lembro ao certo quando, como ou porquê, se calhar num daqueles meus arremessos “isto parece giro”. Comecei com o livro de short stories, Je voudrais que quelqu’un m’attende quelque part, um livro com algumas ideias brilhantes e um estilo refrescante. Talvez porque o francês me fosse mais acessível, ou porque estava tão habituada à chick lit britânica (para lá da Bridget Jones), gostei e fiquei fã para os seguintes.

Neste cinco anos, tenho-me recusado a comprar muita coisa que duplique o que tive de deixar em França, sempre na ilusão de que um dia, um dia!, tudo me será devolvido. Livros, roupas, sapatos… os meus clássicos, as minhas referências, tudo do que ficou lá. Só trouxe os CDs, porque faziam pouco peso e volume na bagagem.

Hoje, na minha volta habitual pela secção internacional da FNAC, saltou-me à vista uma capa, com cores de amêndoas de Páscoa. Já o tinha visto, igual ao meu original, mas sempre a pensar “já tenho”. Se calhar é porque esta edição de bolso é diferente, não parece aquele tijolo que recebi da Amazon.fr naquele dia de Primavera, há cinco anos. Se calhar porque já é altura. Se calhar porque depois do filme no UCI e do DVD já tenho saudades das palavras. Se calhar porque o último, La Consolante, me deu ainda mais saudades de voltar a ler mais e mais páginas de Gavalda. Se calhar porque já é altura.

Não sei. O certo é que também lá estava um volume com as obras completas do Oscar Wilde e lá voltou a ideia “já tenho”.

Mais, lá, mon petit, on est ensemble, c’est tout :)

Acho que já percebi.Os homens não são complicados, são é vraiment chiants…

Fui pagar o dízimo à Santa Casa. Nunca me sai nada (mentira, ainda agora tive três euros no Joker, que fortuna!), mas faço-o a pensar não só na minha possibilidade estatística de me saírem três euros, mas também porque assim contribuo para quem ganha e para quem pouco ou nada tem e é ajudado pela Misericórdia. Era uma das coisas que me fazia confusão em França, era jogo por jogo, faltava-lhe este lado de solidariedade.

Enfim, fui pagar o dízimo à Santa Casa e, no quadro de cortiça do costume, lá estavam as cautelas da Clássica de próxima Segunda-feira. O grafismo chamou-me a atenção, são umas cautelas bonitas, em sépia, com a efígie do Trindade Coelho.

A minha mãe teve recentemente a oportunidade de ir a Mogadouro, por ocasião do centenário da morte do Trindade Coelho. Achei piada à cautela também por isso, tinha essa ligação, perguntei quando saía – tanto tempo a comprar cautelas para o meu pai e nunca fixei, Clássica à Segunda, Popular à Quinta, não precisava, ele sabia.

E veio de dentro, tão do fundo que eu mal reconheci, senti só as orlas e agi. “Não, ainda não consigo comprar a lotaria.”

O meu pai chegava a pôr as cautelas no candeeiro da sala para a Passagem de Ano, com as notas, porque era dinheiro, era esperança, era hábito. Quando a minha mãe o conheceu, já ele comprava lotaria. Sozinho e naqueles esquemas de colegas. Tinha as suas superstições – não podia ser na tabacaria x, tinha de ser na z porque uma comprava num sítio, a outra noutro. Bom mesmo era ir ao Rossio. Por vezes era mesmo a sua única saída semanal, ir à tabacaria buscar as cautelas. “Escolhe bem o número!” dizia-me, quando já não conseguia sair da cama e me passava o testemunho. E também eu ganhei as minhas superstições, havia uma moça na tabacaria z que dava mais sorte que os outros, fazia os meus cálculos rápidos de numerologia para escolher, “sentia” o número. Chegou a pagar-me uns cafés, a lotaria do meu pai.

Não, ainda não consigo comprar lotaria. Não sei se algum dia vou conseguir. Era o meu pai o Homem da Lotaria.

Nota: título daqui.

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"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

Serenity Prayer

God grant me
The serenity to accept
the things I cannot change;
Courage to change
the things I can;
And wisdom
to know the difference.

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