Vinha distraída Avenue Charles De Gaulle abaixo. Ao fundo, a Mairie, com a sua fachada sóbria e elegante, as bandeiras tricolor e estrelas-sobre-azul esvoaçantes. E, de repente, reparo nos cartazes de propaganda politica colados nos placards junto ao gradeamento. La France aux Français.
E ali, na minha cidadezinha de bonecas, com meia dúzia de ruas, junto à floresta, com a sua halle do século XV, entre os fromages e o couscous marroquino e a carne à alentejana do L’Escargot e a estátua de Nossa Senhora de Fátima na Igreja de Saint-Clément (oferta da comunidade portuguesa da região), ali, onde um e outro imigrantes queríamos educar os nossos filhos, ali, naquele ano de 2002, ainda antes de toda a bronca da primeira volta das Presidenciais…
… confesso, tive medo. Mais do que sentir-me rejeitada, tive medo. Vi naquele cartaz, então ali, entre os outros de outros partidos, com toda a legitimidade institucional dada pelo gradeamento da Mairie, o ódio. Um ódio com direito a voto e a lugar na arena política.
A Mairie fica entre dois rios, dizem rios mas ali parecem quase canais, para quem vem de uma cidade onde o rio se conhece na foz. Passam dum lado e doutro da avenida que eu descia, descontraída e distraídamente. Havia sempre cabecitas louras com os pais ou avós debruçados no murete, a tentar ver os peixes por entre algum lixo. E eu vi aquele cartaz e senti-me junto aqueles rios e só sentia, mais do que me lembrava, aquela noite em Paris em que os energúmenos da FN atiraram um pobre não-francês ao Sena. Foram presentes à Justiça, mas o morto ficou morto. E só senti a facilidade com que um bando de criminosos de repente evidencia a fragilidade de uma simples pessoa que vai à sua vida por uma rua. Como também em Lisboa, com as mãos e os pés, num bairro onde a liberdade de expressão se quis um dia rainha. Apenas porque a cor é outra, apenas porque os Rs não são rolados de berço.
Como mulher, sempre andei na rua com aquele sexto sentido a tentar prever e prevenir certos ataques, corça em alerta constante na coutada do macho latino. E por acaso estranhei andar pelas ruas de França e não ouvir os piropos, não sentir os olhares – estranhei aquela segurança enquanto mulher.
E, de repente, ali, na minha cidadezinha de bonecas, senti a minha porta arrombada. Não a minha porta de mulher, mas a de pessoa. Apenas porque não tinha nascido ali.
O indivíduo e o partido por trás desse cartaz continuam com direito de antena e assento na Assembleia Francesa e no Parlamento Europeu. Espero que a democracia que os pôs lá lhes mostre que somos mais, bem mais, tão mais, os cidadãos que continuamos a acreditar num grito antigo:
Liberté! Égalité! Fraternité!






No comments yet
Comentários feed para este artigo