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O meu único pedido para os Oscares é que o Dev Patel e a Freida Pinto dancem em palco ao som do Jai Ho.

Echarpe amarela facultativa.

Hoje enterrei o Peter Falk. Uma notícia exagerada.

Entrei num táxi e pedi para ir para o Colombo (o Centro Comercial, é melhor explicar, já percebem porquê). Já há algum tempo que julgo e me dizem que não bato bem, mas foi o motorista que de repente me disse “gosto muito dos filmes do Colombo”. E eu, apanhada assim desprevenida, com os neurónios a acelerar, o Colombo, “olhe desculpe, agora não percebi”. Lá nos entendemos e fomos aquele bocadinho da Estrada de Benfica a falar do Columbo e da gabardina, dos grandes de antigamente, do John Wayne e da Lollobrigida e do Cary Grant e do Jimmy Stewart e da Loren e do Bond, tudo numa grande mistura, um avançado na idade e outra distanciada da juventude a partilhar filmes.

E o senhor diz “nem sei se ainda é vivo” e eu garanti-lhe que não, que o Peter Falk já tinha morrido, mas há pouco tempo.

Só agora me deu para ir confirmar e o homem continua vivo. Vítima de Alzheimer e das guerras pelo património em que se envolvem as famílias. Daquelas coisas que só vivendo, só apertando aquelas mãos de sempre e vendo os olhos vazios, “quem é esta senhora?”. Lembro-me daquela gabardina e daquela pose de quem não liga a poses sociais e custa pensar que já não será só televisão, que o Peter Falk se deve parecer hoje com aqueles “velhos” que já vi demasiadas vezes em demasiados lares. Os pés a arrastar, as meias tortas com os calcanhares pelo chão, os fundilhos das calças de pijama manchados. Os gestos frustrados das mãos que acabam por cair, como os olhos, porque não conseguem dizer, não conseguem fazer e esquecem-se do que queriam afinal dizer e fazer.

Só quem o vive pode saber o que é quando acaba. Quando aqueles corpos pouco a pouco vão mirrando e as mentes pouco a pouco vão desistindo. E mesmo quando não desistem. E mesmo quando ultrapassam os pudores de partilhar as partes pudendas e todas as coisas que saem naturalmente ou não dos nossos corpos humanos. O que ultrapassa um homem quando pede a uma filha para lhe despejar o urinol, para lhe dizer “quero que vejas o meu saco da colostomia”? O que ultrapassa uma mulher quando expõe os seios ao médico, aos filhos, ao médico que entra sem bater, ao doente do gabinete do lado cuja porta não foi fechada, às enfermeiras que vêm buscar consumíveis? O que ultrapassa uma pessoa quando se vê presa numa cama de hospital a comer sopa dada às colheradas como se fosse uma criança? O que ultrapassa uma pessoa quando sabe que vai morrer e aguenta mais um dia e outro só porque sim?

Para depois se calhar ter uma espécie de filho que só não o enfia no caixão mais barato porque a agência diz que aquele “é o dos indigentes”? Para depois ter os coveiros a calcularem mal a campa e a espetarem com o caixão cabeça abaixo e a terem que pedir ajuda aos familiares para endireitarem o pobre? E sem falar muito nas cenas de carpideiras podres, nas guerras dos velórios em que uns não falam com outros, nas guerras das coroas, qual a maior, a mais vistosa. Qual o luto mais negro, o mais sóbrio, o mais pindérico. A corrida a quem vai no carro funerário.

E isto os velhos. Já lhes começo a perder a conta, há cinco anos que os enterro, os ponho em gavetas, os queimo, os armazeno em frigoríficos à espera de lugar no forno. Esses e todos os que marcaram os trinta anos anteriores, os lutos interiores de décadas, as partilhas, as casas, as jóias, os cordões, as libras. As memórias já só contadas em terceira pessoa ou os lampejos de entrar num quarto, mais pequena que meia porta e ver uma pessoa numa cama, triste, só, e a alegria de repente,”ai a menina”. As poucas fotografias, as vozes que se perderam, os nomes numa árvore genealógica que preencho com teimosia.

Os velhos. Porque os novos… Os velhos ainda se diz, ainda se sabe, “foi uma benção que Deus lhe deu de o levar”, já se espera, já algum dia se imaginou, se chorou de antemão, já se deram descontos porque um dia, um dia já cá não vão estar.

E não sei, não sei se algum dia se entende o que quer dizer isto, morreu, mas morreu o quê, o que é isto de morrer? Onde estão aquelas mãos, aqueles olhos, aquele sorriso, não pode ser, não pode ser. E talvez mais difícil quando se pensa na alma, na purificação, no encontro com os que já foram, quando se acredita que eles, estejam onde estiverem, olham por nós, sorriem por nós. A carne é fraca, foi Jesus quem o disse. E nós, nós, nós ainda somos carne. E é fraca a memória para ouvir aquela voz outra vez.

Lembro-me da saudade quase triste do meu pai ao olhar para uma fotografia minha com três anos, da voz quase perdida com que me disse “naquela altura rias por tudo e por nada”. Qual o mais forte, o luto que ele fez por aquela filha de três anos que cresceu, desapareceu, ou o meu por ele que morreu, desapareceu?

Escrevo e escrevo e não consigo chegar ao luto pelos mais novos, talvez o meu luto pelos velhos seja ainda mais forte, mais forte do que quase tudo. Ou talvez porque nunca consegui chegar ao luto pelos mais novos. Porque ainda hoje não sei o que quer dizer morrer um primo meu aos dezasseis anos. De repente. Dezasseis anos. Há dois anos e meio fiz as contas e senti o dia em que ele esteve para sempre mais morto do que algum dia vivo – cento e noventa e dois meses vivo e naquele dia passou a fazer cento e noventa e três meses que tinha morrido. Sem hospitais, sem análises, sem dores que talvez, sem aviso. “Já venho” e não. E a vida continuou.

Saberá Deus como? Ou é por isso que estamos aqui? Para O ajudar a entender?

Editado por causa do corrector ortográfico e da matemática imbecil de sempre…

batman

Não há volta a dar-lhe. Vinte anos depois, só continuo a ver dentes…

24h-20090127

Não, mas a sério. Começa a não haver vaselina suficiente para esta campanha. Então agora até já usam argumentos de que o difamador é atrasado mental? Não serão estes os termos usados, mas a ideia que se quer passar é essa.

E de tudo fica apenas e sempre um porquê no ar, que não é nem imenso nem minúsculo, apenas é.

De repente, deu-me vontade de reler Os Maias.

Pela minha experiência, a maior carga de sarilhos dum casamento católico-muçulmano é que deixamos de poder fazer carne de porco à alentejana. Não é só o porco, é a vinha de alhos que também chateia! De resto, mais burka menos burka, mais minissaia menos minissaia, boff, o sentido de posse dum muçulmano é talvez inferior ao de um macho latino (e tenho cá para mim que essa é mais uma herança dos tempos da mouraria na Península Ibérica). Porque para um macho latino a mulher é uma questão de ego e a lei do ego é sempre mais forte que a lei de Deus…

Entre Alejandro Sanz, Amaral e Presuntos, apeteceu-me voltar à Mylène:

Qu’on soit des filles de
Cocktails, belles
Qu’on soit des filles des
Fleurs de poubelles
Toutes les mêmes
Qu’on soit des croissants de lune
Qu’on soit des monts de Saturne
Pour l’I.V.G. ou en bulle
Nous on a

On a besoin d’amour
On a besoin d’amour
Besoin d’un amour XXL
On veut de l’amour XXL

Qu’on soit des filles de
L’histoire, rares
Qu’on soit des filles des
Fleurs de trottoirs
C’est comme ça
Qu’on soit Paul en Pauline
Faire la une des magazines
Négatives ou positives
Toutes les filles

Elles ont besoin d’amour
On a besoin d’amour
Besoin d’un amour XXL
On veut de l’amour XXL

On a besoin d’amour
Besoin d’une flamme
Et de vague à l’âme
On a besoin d’amour
Besoin d’un regard
De peau et de larmes
On a besoin d’amour
Besoin d’une flamme
Et de vague à l’âme
On a besoin d’amour
Besoin d’un regard
De peau et de larmes

Hoje é um daqueles dias em que dá vontade de ir lavar a casa de banho com uma escova de dentes, só para poder justificar andar de luvas dentro de casa…

Portugueses sorriem cada vez menos, conclui estudo – TSF

Um estudo do Laboratório de Expressão Facial da Emoção divulgado, esta quarta-feira, no Porto, concluiu que os portugueses estão a sorrir cada vez menos desde 2003, facto que pode estar relacionado com o agravamento da situação económica e social em Portugal.

(…)

As conclusões também indicam que, nas fotografias publicadas nos jornais diários portugueses em 2008, as mulheres sorriem mais que os homens, as crianças são as que apresentam mais e frequentemente o sorriso largo e os homens apresentam mais o sorriso superior a partir dos 60 anos.

Andaram a ver fotos nos jornais para chegar a esta conclusão. Não, a sério. Fizeram este estudo. Alguém teve a brilhante ideia de o fazer, de o propor, de o aceitar, de o executar, de comparar resultados, de… valha-me Santo Não Sei Quem, patrono das metodologias, para completar o rol.

Mas, enfim, alguém acha necessário chegar à conclusão que sorrimos pouco (e cada vez menos, isto agora nem trinta Salazares para nos fazerem sorrir mais!) e que as crianças sorriem mais que os adultos.

Enfim. Podia dar-lhes para pior. Sei lá, ver se é possível produzir baunilha a partir de bosta de vaca. Ou coisa parecida.

Sempre a definir fronteiras de papéis familiares. E a proteger, defender, construir o Ser.

DN Online: SE FOSSE PARA ACABAR COM O HAMAS SERIA BOM

SE FOSSE PARA ACABAR COM O HAMAS SERIA BOM

Ferreira Fernandes
Jornalista – ferreira.fernandes@dn.pt
Ontem, os tanques israelitas entraram em Gaza. Saeb Erakat, um dos mais conhecidos negociadores da Fatah, disse à CNN: “Com o quê querem eles [os israelitas] acabar? Não temos [os palestinianos] Exército. Não temos Marinha. Não temos Força Aérea (…). Este problema exige soluções políticas, não soluções militares.” Erakat não falou para a CNN em Gaza. É que ele, sendo da Fatah, não conseguiu encontrar soluções políticas para estar em Gaza. O Hamas arranjou soluções militares para expulsar Saeb Erakat e os da Fatah de Gaza.

O escritor Amos Oz é israelita e não é um falcão, foi um dos fundadores da organização pacifista Schalom Achschaw (Paz Agora). Dias antes da actual ofensiva terrestre israelita, Oz também foi entrevistado: “Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gangue. Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção”, disse Amos Oz.

Dois discursos de gente de braços atados, do palestiniano Saeb Erakat e do israelita Amos Oz. Um sabe que o seu povo vai apanhar com tanques (como esteve, durante dias, apanhando com bombardeamentos aéreos), sem ter Exército, Marinha e Força Aérea para se defender. O outro sabe que o seu país tem direito a defender-se, mas teme que essa defesa aumente a força do inimigo.

Não estou aqui a fazer de Pilatos, não lavo as mãos da questão. Estou absolutamente ao lado de Amos Oz. E sobre a intervenção dos tanques israelitas julgo-a pela eficácia que venha a ter. Se ela acabar com a flagelação (70 rockets e mísseis diários sobre cidades de Israel), irei considerá-la, à ofensiva israelita, uma boa acção. Se ela acabar de vez com o Hamas, o gangue, hei-de considerá-la uma excelente acção. Mas, infelizmente, temo que os tanques não venham a ser eficazes. Conheço a táctica do gangue. Refugiam-se atrás dos homens, mulheres e crianças inocentes, cuja morte – com os corpos passeados em histeria – é a sua melhor propaganda.

Reparo que Saeb Erakat não faz, como previu Amos Oz, pressão sobre o Hamas. Na verdade, eu também, como se viu acima, não faço pressão sobre Israel – sou solidário com ele. E, sobretudo, estou incondicionalmente ao lado de gente como Amos Oz, dos que consideram que morrerem israelitas e palestinianos inocentes é mau. Sabendo, digo-o com cálculos simples, cínicos e não pérfidos, que essas mortes inocentes só cessarão quando se matarem alguns, ou muitos (os que forem preciso), maus.

Este blog não tem nem terá postas com tops bons e maus do ano que se passou ou listas de desejos e/ou determinações para o que agora se inicia.

Já não me lembro do que almocei, quanto mais dos filmes e músicas de 2008.

E a rolha da garrafa de espumante que se encontrou à pressa cá em casa partiu-se, tivemos de ir à cata de um saca-rolhas e quando conseguimos finalmente encher as flutes, já tínhamos começado a digestão das passas. E eu, olhem, acendi um cigarro sem pensar muito nisso. E se houvesse determinação seria essa pouco original de não acender um cigarro.

Chapéu.

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"É proibida a entrada a quem não estiver espantado de existir."

José Gomes Ferreira

Serenity Prayer

God grant me
The serenity to accept
the things I cannot change;
Courage to change
the things I can;
And wisdom
to know the difference.

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